sábado, 7 de janeiro de 2012

PERNAMBUCO AFORTUNADO - LIVRO

Marcelo Veiga
WWW.PERNAMBUCO.TV

Desde que iniciou suas atividades, em 1989, que a TGI tem
se preocupado em conhecer a fundo a realidade do Estado
de Pernambuco e de suas empresas. Grande instrumento para isso
tem sido a Pesquisa Empresas & Empresários, no âmbito da qual,
ao longo de 9 edições, foram realizadas mais de 1.200 entrevistas
com empresários e executivos de empresas com atuação destacada
no Estado.

Já nos resultados da primeira edição da Pesquisa, realizada
em 1990, aparece claramente a vinculação, feita pelos dirigentes
empresariais entrevistados, entre o destino de suas empresas e o
desenvolvimento de Pernambuco. Isso pautou o tema nas edições
seguintes e o fez objeto de atenção e aprofundamento constantes.



Em determinado momento, todavia, ficou claro para a TGI
que avançar na discussão sobre o desenvolvimento do Estado, como
requeriam vivamente seus clientes e pesquisados, refletindo um
desejo — quase palpável de tão denso — da própria sociedade,
significava ir mais além do que permitia o escopo da Pesquisa E&E
e das pistas levantadas por ela. Significava, sem prejuízo da própria
trajetória da Pesquisa, avançar em outras direções que pudessem
ajudar a refletir sobre as dificuldades e potencialidades vividas
pelo Estado e por suas empresas. Que ajudassem a lançar luz sobre
os requerimentos para a mudança de uma trajetória que, no início
da década de 1990, estava fortemente condicionada pelo que se
convencionou chamar, na época, de “baixo-astral” em relação às
perspectivas futuras de Pernambuco.

A primeira investida na direção desse necessário
aprofundamento foi a promoção, em outubro de 1996, do seminário,
depois transformado em publicação, Pernambucanidade – O Desafio
de Renovar-se, que contou com a participação de expressivos nomes
da inteligência pernambucana (acadêmicos, pesquisadores,
profissionais liberais), num esforço de avançar na compreensão da
complexa realidade do Estado e de esboçar alternativas para um
futuro que ajudasse a esconjurar o “baixo-astral” predominante,
decorrente de uma impressão equivocada de que a economia
pernambucana estaria “decadente” ou “estagnada”. O seminário
gerou quatro conclusões principais:

1. A economia de Pernambuco não estava decadente. Vinha
mantendo, há 25 anos, a mesma participação no PIB do
Brasil. Apenas diminuiu a participação relativa no PIB do
Nordeste em relação a estados que tinham espaço para
crescer, porque possuíam economias bem menores que a
pernambucana, embora mantivesse firme o segundo lugar,
atrás da Bahia.

2. Estava havendo um processo de transição acelerada da
economia estadual, no qual setores tradicionais, como o da
cana-de-açúcar e o têxtil, por exemplo, estavam perdendo espaço
para a fruticultura irrigada e para os serviços especializados.

3. O discurso de estagnação que circulava na mídia era
proveniente, justamente, dos setores que estavam perdendo
posição, mas que continuavam com peso na formação da
opinião pública.

4. Naquele momento, mais do que resgatar a pernambucanidade
(que diz respeito a um passado que não volta mais),
era importante construir uma nova pernambucanidade, mais
adequada aos novos tempos, quando competitividade e
dinamismo são essenciais.

Depois dessa investida e algumas edições da Pesquisa E&E
adiante, a segunda ação organizada, extrapesquisa, da qual
participou a TGI, no esforço de aprofundar a compreensão da
complexa realidade estadual e pensar alternativas para o futuro,
foi a publicação do livro Pensar Pernambuco – Reflexões em Direção
ao Futuro do Estado, em 2003. Dela, participaram vários
profissionais liberais, que, já na introdução, declaravam-se
orgulhosos “muito mesmo, da terra em que vivem” e comungavam
da “dificuldade de aceitar passivamente o destino de decadência
que, infelizmente, contamina, ainda seriamente, nossa combalida
auto-estima”. Uma das conclusões que se poderia tirar dos debates
realizados e do que resultou escrito era a seguinte:

...cria-se um círculo vicioso: não se vê o futuro e, não se vendo o
futuro, tem-se dificuldade de se ver o presente (...) Para quebrar esse
círculo, é preciso mudar a sintonia perceptiva. Ampliar o debate não
viciado. Romper o bloqueio mental. Renovar a discussão. (...) Temos
muito o que pensar, discutir, debater, em suma, entender por que
chegamos a esse estágio para poder ensaiar a saída dele. Precisamos
conversar sobre nossa história, sobre nossa formação, nossa
construção material e psicossocial para desanuviar nosso horizonte
(...) Karl Marx no 18 Brumário já havia advertido que a História só
se repete como farsa, o que leva à conclusão de que é preciso conhecêla
para não repeti-la de modo pouco lisonjeiro. E nossa história deu
muitas voltas desde que Duarte Coelho aportou por essas bandas
com a idéia fixa de fundar a Nova Lusitânia nos trópicos. (...) Como
qualquer realidade social, a nossa é complexa, talvez particularmente
complexa, e não pode ser sondada por intermédio de simplificações
grosseiras e generalizações primárias.
Pensar Pernambuco, 2003, p. 13.

As conclusões tiradas dessa segunda investida na direção
da melhor compreensão da realidade do Estado para melhor mudála
terminaram por convencer a TGI de que era preciso avançar. Ir
mais além. A partir dessa constatação, foi empreendido um
“mergulho” na história do Estado para tentar entendê-la mais e,
justamente, ajudar a pensar melhor sobre o futuro.

É precisamente o primeiro resultado desse “mergulho” que
o leitor tem agora em mãos. Nessa empreitada, a TGI contou
com a inestimável colaboração do historiador Carlos André
Cavalcanti, que aceitou o desafio de co-produzir essa visão
panorâmica, não acadêmica e um tanto heterodoxa, em forma
de ensaio. Na verdade, um livre exercício de pensar a história
olhando os fatos ocorridos e procurando interpretá-los à luz da
contemporaneidade. Sempre na busca do “fio condutor” que dá
sentido ao que é Pernambuco, sua gente e seu modo de pensar e
agir, sem a intenção de ser um tratado de história factual
narrativa, mas, sim, uma interpretação dos fatos na busca de
um sentido que ajude a ampliar o conhecimento, estimule o
debate e permita avançar na ação.

Nesse “mergulho”, ficou logo evidente o “afortunamento”
da trajetória histórica do Estado, cuja densidade sobressai de
modo incontrastável na região e, durante largo tempo da sua
existência, no próprio contexto do País. Uma trajetória, ao mesmo
tempo, intrigante e instigante, responsável por uma “herança”
que, se tem seu lado negativo — ou “maldito” como chega a ser
referido no texto — na forma de desigualdade de oportunidades
para o conjunto dos pernambucanos (nesse aspecto não diferindo
em nada do restante do País), fornece elementos absolutamente
originais — “afortunados” — para as mudanças que a sociedade
espera e requer.

Outra constatação dessa imersão, na realidade mais uma
confirmação reforçada pela análise da trajetória, foi a evidência
do protagonismo e da importância da cidade do Recife como
cenário vivo e privilegiado da história de Pernambuco. A história
está nas ruas, inclusive nos seus nomes, na praças, nas
edificações, nas paisagens, nos monumentos do Recife, pelos
quais passamos, na maioria das vezes, sem perceber. Mas está
lá. É só olhar com atenção, com um pouco de curiosidade e com
algum ânimo investigativo que as revelações vão se dando por
trás das evidências do presente e das transformações em processo
para o futuro. Carlos Lessa, em interessantíssimo livro sobre a
cidade do Rio de Janeiro, chama a atenção para esse caráter
mutante da cidade:

A cidade é um permanente vir-a-ser. As transformações que nela se
operam sempre agem a partir das configurações anteriores, que
funcionam não apenas como restrições mas também como indutoras
de certas direções para a transformação.
Lessa, 2000, p. 60.

Em permanente processo de transformação, o Recife guarda
evidências da rica história pernambucana, que merecem a atenção
do transeunte interessado em descobrir mais do que está
simplesmente à vista. Em homenagem à cidade e ao interesse do
leitor-transeunte é que foi tomada a decisão editorial de privilegiar
a cidade como motivo principal das fotos e ilustrações deste livro.

Por fim, o “mergulho” efetuado permitiu identificar que foi
justamente essa trajetória que a leitura atenta descobre
majoritariamente afortunada — e que o Recife presenciou de
forma tão intensa — que permitiu a formação, em Pernambuco,
de um capital, mais do que financeiro ou econômico, intangível,
mas poderoso, indispensável para as transformações em direção
ao futuro que o Estado precisa realizar. Esse capital intelectual,
tão caro à lógica da chamada economia do conhecimento (a “Nova
Economia” do título), materializa-se na forma de três grandes
vantagens competitivas: (1) conhecimento (traduzido na
formação educacional diferenciada e na densa e diversificada
cultura do Estado); (2) logística (traduzida não só na posição
geográfica privilegiada de Pernambuco, mas, sobretudo, na sua
tradição comercial e de centro de distribuição do Nordeste, que
gerou um know-how materializado no Porto de Suape e no Pólo
Distribuidor estadual); e (3) tecnologia (sobretudo a Tecnologia
da Informação, materializada no Porto Digital e nas empresas
“embarcadas”).

Afortunadamente, mais uma vez, no instante da emersão
do “mergulho” dado pela TGI na história, o Estado vive talvez o
momento mais propício desde o fim da primeira metade do século
passado em relação a perspectivas de crescimento econômico e
à possibilidade de iniciar um salto qualitativo em termos de
desenvolvimento, com o anúncio de investimentos projetados
para o Porto de Suape. Tudo faz crer tratar-se não de um episódio
isolado, mas, precisamente, do início da materialização dessas
vantagens competitivas identificadas num ambiente econômico
caracterizado pela globalização, pela importância do capital
intelectual e, como não poderia deixar de ser, pela essencialidade
do investimento em infra-estrutura. Ou seja, do cruzamento da
competência (no caso de Pernambuco, resultado de sua peculiar
trajetória histórica) com a oportunidade de investimentos
estruturadores localizados, o que produziu uma evidente elevação
do “astral” da opinião pública em relação ao futuro do Estado.

Num contexto que articula consciência histórica crescente,
ainda que lenta, das vantagens competitivas do Estado com o
momento favorável em termos de perspectivas de
desenvolvimento, a TGI sente-se particularmente envaidecida de
ter a oportunidade de lançar este livro e de, com ele, dar continuidade
à reflexão e à discussão sobre o passado e, também, sobre o
futuro do Estado. Afinal, tanto os problemas como as
oportunidades engendrados pela história continuam agindo sobre
o presente e, em grande medida, determinando o futuro. Já se
disse que quem não conhece a história está condenado a repeti-la.
Segundo Karl Marx, pior ainda, a repeti-la em forma de farsa. É
isso que este livro pretende ajudar a evitar, contribuindo, na medida
das suas possibilidades, para a construção de um futuro melhor
para todos os pernambucanos.

Francisco Carneiro da Cunha
Diretor da TGI Consultoria em Gestão
Em tempo: e como ninguém sai sem conseqüências de um
“mergulho”, sobretudo quando se trata de um da natureza do que
foi empreendido, além do produto livro, a iniciativa subsidiou
também a decisão de criar, fruto de uma articulação da TGI com o
INTG – Instituto da Gestão, uma linha de pesquisa intitulada História
do Saber e do Fazer em Pernambuco, que dará continuidade ao esforço
feito e ao desdobramento de várias hipóteses e dos caminhos
abertos, com os aprofundamentos necessários para tirá-los da
condição de especulação em direção à sua transformação em
instrumentos utilizáveis. Portanto, outros produtos virão!

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